Há uma cachupa que ganhou fama entre quem conhece a casa, música cabo-verdiana, encontros que atravessam gerações e uma porta que não pergunta a nacionalidade de quem entra. Mas por detrás do ambiente de convívio da Associação Grupo Amizade Caboverdiana, no número 19 da rue Michel Welter, na cidade do Luxemburgo, existe uma história que acompanha praticamente todo o percurso da imigração cabo-verdiana no Grão-Ducado. Cultura, integração, educação e solidariedade foram-se cruzando ao longo das décadas e, actualmente, ajudar quem mais precisa voltou a ocupar um lugar central nas prioridades da associação.
A história é anterior à própria constituição formal da Amizade Cabo-Verdiana. Documentação do CLAE liga a associação ao primeiro movimento associativo cabo-verdiano do Luxemburgo, nascido entre imigrantes chegados nos anos 1960. A organização começou por ganhar forma em Dommeldange e estruturou-se posteriormente no norte do país, em Ettelbruck. Parte desse movimento regressaria mais tarde à cidade do Luxemburgo, instalando-se no 19, rue Michel Welter, endereço que continua associado à colectividade. O CLAE situa a criação do Grupo Amizade Caboverdiana em 1987 e a sua constituição como ASBL em 1995.

Há, contudo, uma etapa intermédia nesta história. Em entrevista ao Lëtzebuerg Hoje, o actual presidente, Ney Évora, recorda que «houve um grupo que iniciou isso em 1981», antes de diferentes reorganizações e mudanças que conduziriam à estrutura posterior. As datas não são, portanto, necessariamente contraditórias: os anos 1970 correspondem às raízes do movimento associativo cabo-verdiano a que a colectividade está ligada; 1981 marca, segundo a memória transmitida a Ney Évora, uma fase de organização do grupo; 1987 corresponde à criação do Grupo Amizade Caboverdiana; e 1995 à sua formalização como ASBL.
A sede tornou-se entretanto muito mais do que um endereço administrativo. A história recolhida pelo CLAE descreve-a como um ponto de encontro dos cabo-verdianos no Luxemburgo, atravessado já por diferentes gerações: os primeiros imigrantes e os seus descendentes nascidos ou criados no país. Foi também neste contexto que responsáveis da associação chegaram a defender a ambição de fazer do espaço uma verdadeira casa da cultura cabo-verdiana, onde a memória da imigração pudesse ser preservada e transmitida às gerações seguintes.

Essa dimensão cultural permanece visível. Em conversa com o Lëtzebuerg Hoje, Ney Évora aponta a música e a gastronomia como duas das actividades que mais pessoas atraem à sede. E há um prato que se tornou praticamente inseparável da associação: a cachupa. «A nossa cachupa já tem uma fama», diz o presidente, explicando que ao fim-de-semana há quem se desloque propositadamente ao espaço para comer, ouvir música e conviver.
A actividade começa habitualmente à sexta-feira ao final da tarde e prolonga-se pelo sábado e domingo. Há música tradicional cabo-verdiana, cachupa e, consoante as ocasiões, pastéis e outros pratos. O convívio não está reservado aos membros nem exclusivamente à comunidade de Cabo Verde. Portugueses, guineenses e pessoas de outras origens passam igualmente pela associação. «A porta está aberta a toda a gente», sublinha Ney Évora.

Esta abertura tem paralelo no percurso histórico da própria associação. Em anteriores direcções, a Amizade Cabo-Verdiana explicou que deixou de se identificar exclusivamente com uma determinada cidade, região ou ilha de Cabo Verde, procurando representar uma comunidade mais ampla. Ao longo dos anos organizou celebrações culturais, encontros, actividades com artistas e iniciativas destinadas a transmitir aos jovens descendentes de cabo-verdianos o conhecimento sobre a origem das suas famílias e as datas importantes da história e cultura do arquipélago.
A educação e a integração também fazem parte deste percurso. A associação desenvolveu projectos de acompanhamento de jovens com dificuldades escolares e procurou envolver as famílias na prevenção do abandono escolar. Entre as iniciativas históricas esteve o projecto N’ta Konsigui, concebido para valorizar a escolarização e incentivar os jovens a prosseguirem os estudos. A associação promoveu igualmente cursos de francês, luxemburguês e alemão, considerando o domínio das línguas do país essencial para a integração e para o acesso ao mercado de trabalho.
Essa ligação à formação não desapareceu. O Centre de Formation Lucien Huss continua a identificar actualmente a sala do Grupo Amizade Caboverdiana, no 19, rue Michel Welter, como um dos locais onde são ministrados cursos. A própria Ville de Luxembourg registou igualmente a disponibilização à associação de instalações destinadas a actividades como cursos de línguas e música.

A cooperação com Cabo Verde é outro elemento que atravessa a história da colectividade. Em anos anteriores, a associação desenvolveu projectos dirigidos a crianças e pessoas doentes e chegou a colaborar com os bombeiros de Contern num projecto destinado à formação de um primeiro corpo de bombeiros na ilha do Fogo, envolvendo formadores do Luxemburgo, um veículo e equipamento.
Actualmente, porém, a ajuda directa às pessoas mais vulneráveis ganhou particular importância. «Nós nesse momento concentramos mais em ajudar as pessoas que têm mais necessidade», explica Ney Évora. No próprio dia em que recebeu o Lëtzebuerg Hoje, tinha consigo dois envelopes destinados a famílias necessitadas. A associação preparava igualmente ajuda para uma jovem doente com cancro, incluindo apoio para uma passagem. «Já ajudámos muito e vamos continuar a ajudar», garante.
Os pedidos podem chegar directamente à associação, mas nem sempre é assim. Alguns casos são encontrados nas redes sociais e chamam a atenção dos responsáveis. «Há pessoas que encontras no Facebook, por exemplo, coisas que mexem com a gente», explica o presidente. Depois é necessário decidir onde intervir, porque os recursos não permitem responder a todas as situações.
Também não existe uma ilha privilegiada. A lógica, explica Ney Évora, é ajudar onde houver necessidade. Quando questionado sobre uma eventual concentração geográfica das iniciativas, responde simplesmente: «É Cabo Verde». O princípio é olhar para o arquipélago como um todo e procurar responder aos casos para os quais a associação consegue reunir meios.
A dimensão desse esforço torna-se mais clara quando se observam algumas operações recentes. Segundo o presidente, no ano passado a associação enviou para Cabo Verde um contentor de 40 pés carregado com material farmacêutico, que chegou a São Vicente e Santo Antão. Foram igualmente enviados lotes de cadeiras e outros materiais e, mais recentemente, material destinado a um centro juvenil.
Encontrar material para oferecer, contudo, é apenas metade do problema. Depois é preciso fazê-lo chegar a Cabo Verde. E é aqui que a solidariedade enfrenta uma realidade muito mais difícil: o preço do transporte.
Só o envio daquele contentor de 40 pés representou uma despesa de cerca de sete mil euros, segundo Ney Évora. Não foi um custo suportado por um programa público específico ou por um grande patrocinador. Foi a própria associação que teve de encontrar o dinheiro.
«Fizemos todo o sacrifício para enviar o contentor», conta o presidente. Os cerca de sete mil euros foram angariados através das actividades promovidas pela associação, incluindo festas e iniciativas gastronómicas. A cachupa que reúne pessoas à mesa no Luxemburgo acaba, assim, por ter uma segunda função: ajudar a pagar a distância que separa uma doação de quem dela necessita em Cabo Verde.
O problema repete-se em operações de menor dimensão. O transporte de cadeiras já obrigou a associação a desembolsar mais de mil euros e novos envios voltaram a representar despesas semelhantes. Mesmo quando é concedido um preço especial por se tratar de uma doação, a factura continua elevada para uma colectividade que tem de gerar grande parte dos seus próprios recursos.
Surge assim um paradoxo que condiciona o trabalho solidário: pode existir material disponível no Luxemburgo e uma instituição ou comunidade que dele necessita em Cabo Verde, mas fazer a ligação entre os dois pontos pode custar milhares de euros. Dinheiro que poderia ser utilizado directamente noutras formas de ajuda acaba necessariamente aplicado no transporte.
É também por isso que uma festa, um encontro musical ou um prato de cachupa não devem ser vistos apenas como actividades recreativas. São instrumentos de preservação cultural e de convívio, mas podem igualmente transformar-se numa passagem para alguém que precisa de ajuda, no transporte de cadeiras, em material destinado a um centro juvenil ou num contentor de equipamento que atravessa o Atlântico.
A associação pretende manter esta orientação. Entre os projectos referidos ao Lëtzebuerg Hoje está a continuação da ajuda a instituições e comunidades de Cabo Verde, incluindo novas acções de apoio a igrejas, depois de iniciativas realizadas anteriormente. A regra continuará a ser a mesma: intervir onde for identificada uma necessidade e onde os meios disponíveis permitam fazer diferença.
Para Ney Évora, que está há cerca de quatro anos à frente da associação, essa prioridade é fácil de resumir: «O melhor projecto que temos é ajudar quem tem falta, os que mais necessitam de nós.»
É uma frase que sintetiza também a evolução de uma associação nascida das necessidades de uma comunidade imigrante e que, décadas depois, continua ligada ao país de origem sem deixar de fazer parte da sociedade luxemburguesa.
«Quando vejo no Facebook uma pessoa que quer fazer uma consulta (…) e que não consegue, aquilo mexe comigo», conta o presidente. «Eu faço tudo para ajudar, ao menos para diminuir o sofrimento dessa pessoa.»
A mensagem que a Amizade Cabo-Verdiana deixa não se dirige, por isso, exclusivamente aos cabo-verdianos. Nem sequer apenas aos lusófonos.
No final da entrevista ao Lëtzebuerg Hoje, Ney Évora faz um apelo à participação e à solidariedade de toda a comunidade no Luxemburgo. Há pessoas que precisam de ajuda e nem todos partem das mesmas condições, lembra.
«Nem todo o mundo tem as mesmas oportunidades.»
Décadas depois das primeiras formas de organização da comunidade cabo-verdiana no Luxemburgo, a Amizade Cabo-Verdiana continua, assim, a juntar duas margens. De um lado está o Luxemburgo, onde sucessivas gerações construíram a sua vida e onde a associação mantém uma casa aberta à comunidade. Do outro está Cabo Verde, presente na música, na gastronomia, na memória e nas pessoas que continuam a precisar de apoio.
Entre os dois estão milhares de quilómetros — e uma associação que continua a tentar encurtá-los.



