«Nem eu sei, às vezes.» É com uma piada que Alex Monteiro responde quando o Lëtzebuerg Hoje lhe pede para se definir. Aos 43 anos, o psicólogo e psicoterapeuta, nascido no Luxemburgo, divide o quotidiano entre a profissão e os palcos, onde a improvisação e o stand-up ocupam um espaço que começou a ganhar forma ainda durante a infância. O primeiro fascínio veio de casa, ao observar os pais a rirem-se de programas cujo humor ainda não compreendia inteiramente. Recorda sobretudo La Classe, emitido na televisão francesa FR3. Ficou-lhe uma descoberta curiosa para uma criança: havia pessoas cujo trabalho era fazer rir. Numa família pouco ligada às artes, porém, demoraria bastante até imaginar que também ele poderia subir a um palco.
A oportunidade apareceu durante os estudos de Psicologia, em Estrasburgo. Alex assistiu a um espectáculo de improvisação e gostou, mas a experiência ficou por aí. Já depois de começar a trabalhar, recebeu pelo correio um folheto que convidava a experimentar a disciplina num sábado à tarde. Foi. Inscreveu-se. Poucos meses depois estava em palco. Passaram mais de 15 anos e a improvisação continua presente na sua vida. Na véspera da entrevista ao Lëtzebuerg Hoje, tinha participado em mais um espectáculo. A experiência acumulada permite-lhe hoje actuar em noites consecutivas sem uma preparação específica, confiando na construção colectiva e naquilo que nasce diante do público.

O caminho até ao stand-up foi bastante diferente. Começou com um workshop de escrita e interpretação de que, admite sem rodeios, não gostou. Estranhou a ideia de ensinar alguém a fazer rir e nem sequer achou particularmente engraçado quem orientava a formação. Mas houve uma descoberta decisiva: os open mics, sessões em que humoristas sobem ao palco para experimentar material novo. Alex começou por actuar em inglês, transformando episódios da própria vida em histórias que acreditava poderem provocar gargalhadas. Mais tarde passou para o francês e acabou por abandonar o inglês por falta de tempo. As primeiras experiências correram bem, mas depressa percebeu que o stand-up exigia uma disciplina muito própria. «Escrever, escrever, corrigir, escrever, corrigir», resume.
Essa diferença sente-se também na relação com os espectadores. Na improvisação, explica, quem está na sala sabe que os próprios artistas estão a descobrir a história à medida que ela acontece. No stand-up, existe outra expectativa. O público sabe que houve preparação e espera rir, mesmo quando o humorista está apenas a experimentar um texto novo. O verdadeiro trabalho passa então por esconder o trabalho. Fazer com que frases escritas e afinadas repetidamente pareçam surgir naquele preciso instante. Para Alex Monteiro, conseguir que uma actuação soe a uma simples conversa é um dos melhores resultados possíveis.

O francês continua a ser a sua principal língua em palco. Foi nela que apresentou durante três anos o primeiro espectáculo, mas recentemente decidiu testar outro território: o luxemburguês. A primeira experiência aconteceu há poucos meses, correu bem e deixou vontade de repetir. O português continua igualmente no horizonte. Já houve oportunidades para participar em palcos nessa língua, organizados por um colega, mas as datas, a falta de tempo e, admite Alex, talvez alguma falta de coragem foram adiando a estreia.
Não seria simplesmente uma questão de traduzir as piadas. Alex considera que teria de adaptar histórias, referências e a própria construção do humor. Actuar em português seria ainda uma forma de praticar uma língua que actualmente utiliza pouco. A ligação a Portugal, contudo, já chegou aos palcos através do Portugal Comedy Club, projecto vindo de Paris que apresenta em francês histórias de humoristas ligados ao país. Alex participou com Daniel Moutinho numa passagem pelo Luxemburgo e chegou também a actuar em Paris com o grupo. Portugal propriamente dito ainda falta no percurso. Até agora, não recebeu convites para actuar no país.
O próximo passo já tem data. A primeira apresentação do segundo espectáculo de Alex Monteiro está marcada para 6 de Novembro de 2027. Há, portanto, mais de um ano de trabalho pela frente. O plano passa por continuar a escrever, corrigir e levar novas histórias aos open mics, sobretudo em França e na Bélgica, sem abandonar algumas sessões no Luxemburgo, onde considera haver menos oportunidades para testar material deste género. A improvisação também continuará.
Entre consultas, textos e palcos, Alex Monteiro mantém assim duas actividades aparentemente distantes, mas onde ouvir e observar têm um peso considerável. Na psicologia, essa atenção faz parte da profissão. No humor, experiências quotidianas podem acabar transformadas em material, trabalhadas palavra por palavra e finalmente entregues ao julgamento mais imediato que um humorista conhece: a reacção de uma sala cheia.



