Fazer rir a partir das pequenas histórias da vida, incluindo aquelas que no momento não tiveram graça nenhuma, tornou-se uma das marcas de Daniel Moutinho. Numa conversa descontraída entre cappuccinos com o Lëtzebuerg Hoje, o humorista luso-luxemburguês falou do percurso que começou ainda na infância, das personagens que criou, da família e de uma relação com a comédia que vai muito além de subir a um palco.
Nascido em Portugal, na Guarda, Daniel chegou ao Luxemburgo quando tinha dois ou três anos. Cresceu no Grão-Ducado e fez aqui todo o percurso escolar. É uma história comum a muitos filhos da imigração portuguesa, mas que, no seu caso, acabou também por fornecer matéria-prima para a comédia. Quando lhe pedimos que diga, afinal, quem é Daniel Moutinho, a resposta sai simples: «Uma pessoa que gosta de rir e fazer rir.»
A vontade de provocar gargalhadas não apareceu já em adulto. Na escola, recorda, procurava frequentemente descobrir onde estava a piada de cada situação — nem sempre para felicidade dos professores. Esse olhar ficou. Hoje continua a observar episódios do quotidiano e a procurar neles o detalhe capaz de funcionar em palco, mesmo quando a história original não teve graça nenhuma.

Há, aliás, uma dimensão muito pessoal nessa forma de fazer humor. Daniel reconhece que algumas situações que hoje fazem rir aconteceram há dez, 15 ou 20 anos e, na altura, foram tudo menos divertidas. O tempo muda a maneira de olhar para elas. Quando finalmente consegue rir de algo que lhe fez mal, sente que ultrapassou a parte desagradável da experiência.
Foi também dessa capacidade de observar o quotidiano que nasceram personagens como Joss den Hellen, provavelmente o seu alter ego mais reconhecível. Cabelo comprido, óculos grandes, bigode farto e um visual impossível de confundir fizeram da personagem uma figura conhecida do público luxemburguês. Den Bopi é outro dos rostos desse pequeno universo criado pelo humorista.
Por detrás das perucas, dos bigodes e das personagens, porém, está frequentemente a própria história de Daniel. A imigração portuguesa, as línguas, os sotaques e as experiências familiares aparecem no seu material. O pai também entra nas histórias. São episódios onde muitos portugueses que fizeram vida no Luxemburgo podem reconhecer pedaços do seu próprio percurso.

O francês continua a ser a principal língua dos seus espectáculos, uma escolha natural num país onde públicos de várias nacionalidades se encontram na mesma sala. Mas o português não desaparece. Daniel introduz ocasionalmente palavras, referências e piadas dirigidas à comunidade lusófona. Já houve noites em que perguntou quantos portugueses estavam na plateia e praticamente metade da sala respondeu.
Apesar do crescimento nos palcos e da popularidade alcançada com a comédia, Daniel Moutinho não vive exclusivamente do humor. E não é apenas uma questão de saber se seria possível fazê-lo no Luxemburgo. É também uma escolha de vida.
Daniel é pai de uma menina de quatro anos. A estabilidade profissional e o tempo disponível para a família pesam quando imagina uma vida feita de duas, três ou quatro actuações por semana, com muitas noites longe de casa. Reconhece que já encheu salas e acredita que poderia construir uma actividade profissional em torno dos espectáculos e de projectos de vídeo. O problema está na incerteza: semanas com muito trabalho podem ser seguidas por outras praticamente vazias.
Aos 20 anos, admite, talvez olhasse para esse risco de outra maneira. Hoje existem outras prioridades.
Isso não significa abrandar a criação. Pelo contrário. Daniel começa a imaginar uma comédia capaz de juntar a gargalhada a assuntos sérios. Um dos caminhos poderá passar pelas línguas, pela educação e pela própria realidade do Luxemburgo, um país onde diferentes idiomas fazem parte da rotina de milhares de pessoas.
A ideia é simples: falar de algo sério sem perder a piada. Fazer rir e, ao mesmo tempo, deixar o público com qualquer coisa para pensar quando regressar a casa.
Outro tema que gostaria de levar para esse território é a sua própria experiência com a perturbação de hiperactividade e défice de atenção. Daniel contou ao Lëtzebuerg Hoje que tem um diagnóstico e conhece de perto as dificuldades de concentração associadas à condição, nomeadamente durante os estudos. Perceber o que se passa, explica, também permite encontrar formas de lidar melhor com determinadas situações.
Transformar essa experiência em humor poderia servir para explicar o tema sem tornar o discurso pesado. Daniel gosta precisamente dessa ideia de uma piada que não seja gratuita. Uma piada capaz de arrancar uma gargalhada e, segundos depois, obrigar alguém a pensar que, por muito absurda que pareça, talvez tenha ali alguma verdade.
Portugal também poderá aparecer no futuro deste percurso. Daniel já participou em espectáculos ligados ao Portugal Comedy Club e admite que gostaria de actuar em território português. Há duas possibilidades: aproveitar o público emigrante habituado ao francês ou dar um passo diferente e preparar um espectáculo em português.
A segunda hipótese agrada-lhe. Como grande parte do seu humor assenta no storytelling, acredita que as histórias podem sobreviver à mudança de língua. Algumas piadas teriam de ser adaptadas, naturalmente, mas a lógica e a essência permaneceriam. Não promete datas. Também não fecha a porta. E deixa claro que está aberto a convites.
Entre Daniel Moutinho e as personagens que leva aos palcos existe, afinal, uma fronteira bastante fina. Joss den Hellen, Den Bopi, as histórias do pai, a infância no Luxemburgo, as línguas que se cruzam diariamente e aqueles episódios que demoraram anos até conseguirem provocar uma gargalhada fazem parte do mesmo percurso.
No próprio espectáculo, Daniel brinca com uma pergunta aparentemente simples: quem é Daniel. Depois de tantos anos, diz, talvez ainda esteja a tentar descobrir. Nem parece muito preocupado em chegar rapidamente à resposta. Enquanto a procura der boas histórias, há material para rir.



