Um espaço novo para pensar a cultura no Luxemburgo nasceu de conversas gravadas num sofá, sem guião prévio e sem qualquer grande grupo mediático por trás. O propósito enuncia-se depressa, mas custa a concretizar: trazer para a luz aquele tipo de conversa franca que costuma ficar entre quatro paredes, e expô-la, para que outros nela se revejam.
Chama-se Pen. e é obra de Carolina Reinertz — contadora de histórias, jornalista e fotógrafa. O nome não é desconhecido de quem segue a cena mediática local. Foi editora e mantém-se colaboradora do RTL Today, onde assina «Caro Tries», série de crítica gastronómica dedicada a percorrer restaurantes e novos espaços da capital. Também na fotografia deixou rasto, com um terceiro lugar no concurso luxemburguês Open Wall.

A semente foi plantada há cerca de quatro anos, no rescaldo da pandemia. Ainda ligada ao RTL Today, Reinertz imaginava algo próximo de uma mesa-redonda, capaz de juntar gente de mundos distintos. A leitura que fazia do país dava-lhe o mote. «Toda a gente no Luxemburgo vive um pouco dentro da sua própria bolha», contou ao Lëtzebuerg Hoje, apontando o paradoxo de um território pequeno e, ainda assim, pouco interligado. As perguntas que cada um faz a si mesmo, defende, são afinal as de muita outra gente.
O arranque foi modesto. Primeiro só texto — artigos e mais artigos num sítio próprio. Cedo percebeu que faltava ali qualquer coisa: a componente interactiva, o lado visual, aquilo que hoje prende as pessoas bem mais depressa do que uma página escrita. Dois anos na produtora de cinema Samsa, num projecto transmedia em torno da história da Rádio Luxemburgo, acabaram por lhe entregar a peça em falta. Aprendeu a valorizar a imagem, o modo como se constrói e como fixa uma ideia na memória de quem a vê.

A candidatura à bolsa da Œuvre Nationale foi apresentada em outubro. O apoio dirige-se a criadores com menos de 36 anos e acolhe propostas de natureza muito variada, da exposição de arte à fotografia. A ideia levada a concurso já era outra: um podcast que é, ao mesmo tempo, um programa de vídeo, com entrevistas a figuras que dão algo à cultura do país.
O formato despe-se de artifício. Sentar no sofá, ao lado do convidado, e conversar como se ninguém estivesse a ouvir — essa intimidade é o coração do projecto. Em cada episódio, Reinertz procura um fio condutor que atravesse as conversas, porque há sempre algo a ligar uma história à seguinte. O elenco vem, para já, do sector cultural: artistas e criadores empenhados em deixar marca. O retorno tem animado. Vários entrevistados escreveram-lhe depois, a dizer o quanto se reviram naquilo que partilharam e como foi importante dizê-lo em voz alta.
Com Pascal, o convidado mais recente, a conversa desceu ao terreno espinhoso do financiamento — se há investimento suficiente na música e se o modelo em vigor é o mais acertado. São dúvidas que atormentam muitos profissionais e que, segundo Reinertz, raramente chegam ao espaço público. Numa antena como a da RTL, admite, dificilmente teriam lugar. A independência é, aqui, matéria de princípio. Sem amarras a grandes grupos, a plataforma quer-se um lugar de fala livre, onde a confiança entre quem pergunta e quem responde pesa mais do que qualquer alinhamento combinado. Reinertz recusa as entrevistas polidas de mais, ensaiadas ao milímetro, com as perguntas acertadas de antemão. Move-a o contrário disso: o cuidado com aquilo que lhe é confiado e a responsabilidade de o devolver na forma mais pura.
Por agora, o Pen. vive no Instagram e no YouTube, com três episódios disponíveis. É um começo, e Reinertz sabe-o. Procura formas de chegar a mais gente, ciente de que nem todo o público que quer alcançar habita as redes sociais, e envolver a imprensa faz parte dessa estratégia. A vontade de crescer é evidente e matéria-prima não falta — basta olhar para o pólo criativo de Esch-sur-Alzette, com os seus artistas residentes, para perceber quantas vozes há por ouvir. O futuro depende, em boa medida, de dinheiro. A bolsa serve de capital de arranque, mas a sustentabilidade a longo prazo exigirá patrocínios ou novos apoios, num equilíbrio que descreve como uma luta permanente. Resta uma condição que nenhum financiamento resolve: um projecto assim é tão forte quanto a curiosidade de quem o escuta. Se as pessoas passarem ao lado, em cinco ou dez segundos de scroll, nada disto se aguenta. E a aposta é precisamente o oposto dessa pressa — temas com profundidade, perguntas a sério, o convite a parar por um instante para pensar.


