O retrocesso democrático no mundo entra no seu décimo primeiro ano seguido, com mais países a perderem terreno do que a ganharem — e, neste quadro sombrio, o Luxemburgo surge entre os desempenhos mais sólidos do planeta. É o que mostra a edição de 2026 do relatório Global State of Democracy, do International IDEA, que avalia mais de 170 países em quatro dimensões: Representação, Direitos, Estado de Direito e Participação. A conclusão de fundo é de estagnação: em 81 por cento dos indicadores analisados não houve qualquer alteração face ao ano anterior. Pouco muda. Mas o pouco que muda tende a piorar.
No caso do Grão-Ducado, a fotografia é claramente favorável. O país aparece em 4.º lugar mundial no Estado de Direito (0,884) e em 5.º nos Direitos (0,910), dois dos melhores resultados de toda a tabela. Na Participação, ocupa a 12.ª posição, com uma ligeira subida. O ponto mais fraco está na Representação, onde cai para 32.º — um contraste que reflecte, sobretudo, os limites de um sistema com forte peso de residentes estrangeiros sem direito de voto nacional. Ainda assim, em nenhuma das quatro áreas o Luxemburgo regista quebras.
Entre os países da CPLP, Portugal continua a ser o mais bem classificado, mas com sinais de erosão que o relatório não disfarça. Mantém-se no 20.º lugar na Representação, embora tenha descido cinco posições, e perde terreno de forma acentuada no Estado de Direito, onde recua doze lugares para 45.º, e na Participação, onde cai vinte posições até ao 75.º. O Brasil apresenta o retrato mais contrastado do espaço lusófono: melhorou doze lugares nos Direitos e figura no 13.º posto mundial em Participação — praticamente lado a lado com o Luxemburgo nessa dimensão. Cabo Verde segura uma posição intermédia, e Timor-Leste mantém-se a meio da tabela global.
Nos degraus mais baixos, o sinal de alarme é evidente. A Guiné-Bissau protagoniza a queda mais brutal de todo o relatório na Representação, despenhando-se trinta e sete lugares até ao 153.º posto, com pontuação nula. Angola, Moçambique e a Guiné Equatorial repartem os últimos lugares em quase todas as categorias, com o Estado de Direito a revelar-se, para vários, o elo mais frágil. Macau, por seu lado, não integra a lista de territórios avaliados no estudo, pelo que não há dados comparáveis para a antiga administração portuguesa.
O aviso central do International IDEA aponta justamente para aí: o Estado de Direito é hoje a dimensão mais vulnerável, a recuar a partir de bases já debilitadas, à medida que tribunais independentes e mecanismos anticorrupção são postos em causa. Para a comunidade lusófona no Luxemburgo — que vive num dos países mais bem cotados do índice mas mantém laços diários com nações em trajectória oposta —, o relatório funciona como um espelho duplo: mostra o solo firme que se pisa aqui e a fragilidade que persiste do outro lado dessa ligação.


