A aposta em cruzar o fado tradicional com a música luxemburguesa no mesmo roteiro deu frutos — e trouxe a Larochette muito mais gente do que no ano anterior. O balanço fez-se ao fim do dia, com os cafés cheios e a Place Bleech a transbordar. A terceira edição do Rali do Fado e Canções, no passado sábado, 12 de Setembro, confirmou que a fórmula tem pernas para andar.
Onze concertos espalharam-se por cafés e pela praça principal, do meio-dia à noite, num percurso a pé que se fazia de porta em porta. Sete grupos de fado tradicional, quase todos vindos de Portugal. E, pela primeira vez, quatro nomes maiores da cena luxemburguesa, em versões exclusivamente acústicas — entre eles Josh Island e Serge Tonnar. Foi essa mistura, precisamente, que puxou públicos diferentes para as mesmas ruas.
O sol que se previa acabou por aparecer, e muitos aproveitaram para conhecer a aldeia antes de a música começar. Larochette, muitas vezes apontada como a vila mais portuguesa do Luxemburgo, prestava-se ao papel: as ruínas do castelo medieval no alto do esporão rochoso, a igreja, as ruelas de pedra, tudo a poucos passos dos palcos improvisados.
Os luxemburgueses D’Halunken abriram a jornada ao meio-dia, na Place Bleech. Seguiu-se um desfile de vozes de hora a hora — da equatoriana Maria Tejada, que cantou fado em espanhol, à fadista Paula Oliveira, radicada no Luxemburgo, passando por Márcio Mendes, Lúcia Araújo, Joana de Deus, Juliana Duarte e a cantautora Irina Holzinger. Ao cair da tarde, Josh Island subiu à grande praça.
Antes do momento maior da noite, o Serge Tonnar Trio encheu a Place Bleech. O músico luxemburguês, um dos nomes mais populares do país, não escondeu o entusiasmo. Em declarações ao Letzebuerg Hoje, afirmou ter adorado a experiência e defendeu que fazem falta mais iniciativas como esta.
O ponto alto guardou-se para as 22h00. Ana Laíns, uma das vozes mais reconhecidas do chamado Novo Fado, com mais de 25 anos de carreira, fechou a noite na praça principal com fado mas também com muita música popular. As guitarras ficaram a cargo de Miguel Braga, na portuguesa, e de André Miguel Santos, na viola de fado. Momentos antes de subir ao palco, a fadista falou em exclusivo ao Letzebuerg Hoje, e o regresso tinha para ela um peso próprio. «Luxemburgo foi o primeiro país onde fiz uma digressão na vida, ainda era uma miúda a começar, pelas mãos do Joaquim Caniço, que é quem traz cá praticamente todos os fadistas. Tinha 20 anos quando cantei aqui a primeira vez. Voltar agora em nome próprio, com o meu conceito, é muito especial. Estou muito contente.»
O repertório foi pensado para ir mais longe do que o género. «Espero que as pessoas não se vão embora com o frio e que gostem da selecção que escolhi. Tentei ir um pouco além do fado, às nossas raízes — toco também o adufe —, e a ideia é fazermos uma viagem pela portugalidade, e não apenas pelo fado», contou. A verdade é que ficaram ficaram e particiaram até ao final da actuação.
À frente da iniciativa esteve a associação Lovers of the Universe. Ao fim da noite, o mentor do projecto, Daniel Terrão, não escondia a satisfação com a nova fórmula: o número de presentes ao longo da jornada superou em muito o do ano passado. Nas primeiras edições, o evento atraíra entre 500 e 600 pessoas; a meta para este ano rondava o milhar, com um equilíbrio entre público português e luxemburguês. «A ideia este ano era para juntar as duas comunidades, fazer um projecto conjunto para optimizar as relações intercomunitárias», resumira Terrão. No final de sábado, já domingo, o objectivo tinha sido cumprido.


