As vagas de calor e o défice de água marcaram de forma profunda a campanha agrícola deste ano no Luxemburgo, com quebras sensíveis nos cereais de primavera e, sobretudo, num sector forrageiro que atravessa o momento mais delicado. A maturação acelerou a um ritmo raro e a ceifa terminou historicamente cedo. O balanço foi traçado numa reunião entre a ministra da Agricultura, da Alimentação e da Viticultura, Martine Hansen, e os representantes do sector cerealífero — De Verband Group/Versis, Bauere Koperativ (BAKO), Moulins de Kleinbettingen e Lëtzebuerger Saatbaugenossenschaft (LSG) —, nas instalações da De Verband, em Colmar-Berg.
Para os cereais de inverno, o balanço é globalmente satisfatório, ainda que com rendimentos ligeiramente abaixo da média; nos de primavera, a seca pesou mais, na quantidade e na qualidade. A cevada de inverno começou a ser ceifada por altura da Festa Nacional e, com défices de precipitação que chegaram aos 100 mm em junho e julho, os cereais amadureceram a um ritmo excepcional, estando a colheita concluída em todo o país logo no início de agosto. A rentabilidade, essa, é outra história: apesar de uma subida de 10 a 15% nos preços dos cereais face ao ano anterior, a produção continua deficitária, avisa Serge Turmes, director da De Verband Group/Versis, pois a crise no Médio Oriente encareceu adubos e combustíveis e o aumento das cotações não chega para absorver a escalada dos custos.
Nem tudo correu mal. A colza de inverno destacou-se pela positiva, a espelta e a aveia — culturas de nicho — deram resultados animadores, com a aveia a render bem e com muito boa qualidade, segundo Günter Mertes, gerente da BAKO, e o trigo panificável «Produit du terroir» ultrapassou as 11.000 toneladas, menos 9% do que no ano anterior mas com qualidade favorável ao fabrico de produtos de padaria, refere Frédéric Baijot, dos Moulins de Kleinbettingen. O quadro agrava-se, porém, no sector forrageiro, que ocupa cerca de três quartos da superfície agrícola útil: nos prados, o terceiro corte foi praticamente aniquilado pela seca e há semanas que os criadores recorrem a reservas destinadas ao inverno, enquanto o milho para silagem e a batata apresentam situações muito contrastadas, com quebras esperadas nos rendimentos. «É agora crucial que cheguem novas chuvas», sublinha Martine Hansen.
Para a ministra, o ano volta a demonstrar a urgência de adaptar a agricultura às alterações climáticas. «Observamos com preocupação as flutuações meteorológicas extremas, a instabilidade geopolítica, a volatilidade dos preços na produção e o aumento dos custos de produção. Para os nossos agricultores, é crucial diversificar as produções, antecipar e subscrever seguros contra as perdas de rendimento, cujos prémios são comparticipados em 65% pelo Ministério da Agricultura», afirmou. As primeiras estimativas apontam para prejuízos avultados nas culturas seguradas — cerca de 5.600 hectares de cereais e 6.000 hectares de milho —, com danos também significativos nos prados, ainda sem número preciso. A 4 de setembro, o balanço das vindimas será traçado em Remich, de novo com a presença de Martine Hansen.


