Poucos sítios permitem dormir, literalmente, dentro de cem anos de história. O Hotel do Parque, na Curia, é um deles: uma casa aberta em 1923, na mesma família desde então, que atravessou o século sem perder a alma — e que continua à espera de quem a queira descobrir.
Tudo começou com a febre das águas. Conta-se na região que um engenheiro francês, encarregado das obras do Caminho de Ferro do Norte, a linha que liga o Porto a Lisboa, terá magoado uma perna e que gente local o mandou lavar a ferida numa nascente que brotava ali perto. A perna sarou. Analisada a água, percebeu-se que as suas propriedades iam muito além da pele: serviam sobretudo o aparelho urinário, desfazendo pedra nos rins e tratando o ácido úrico. Foi quanto bastou. Em pouco tempo a Curia enchia-se de curistas, ergueram-se grandes hotéis, abriu um casino, e boa parte daquele conjunto saiu da prancheta de arquitectos conhecidos — o distinto Palace Hotel, por exemplo, foi assinado por Norte Júnior.

O avô, alfaiate com nome feito na terra, deixou-se arrastar por esse movimento. Arrancou com uma casa alugada e um sócio, uma pequena hospedaria, antes de arriscar edifício próprio. O corpo principal subiu em 1922 e foi rematado, com um acrescento, em 1930. O primeiro hóspede assinou o livro de registo a 17 de junho de 1923 — data que a família fez questão de assinalar em 2023, fechando as portas precisamente no dia em que a casa completou cem anos.

O edifício, de traço Belle Époque, respira ainda esse tempo. As cadeiras que recebem quem entra são as mesmas de há um século — aparecem já nas fotografias mais antigas da casa. No início, tudo era bastante severo: a madeira por todo o lado, os corredores compridos, o tapete corrido a marcar o soalho. Foi a mãe da actual responsável, Alda Rosmaninho, quem deu calor àquele interior, trocando a frieza da madeira nua por um ambiente acolhedor, sem tocar nas peças de época que a família foi guardando como quem guarda memória. O papel de parede tradicional, o soalho, o mobiliário antigo, os objectos herdados de geração em geração — pouco mudou, e é justamente esse o encanto. Entrar ali é recuar cem anos sem sair do conforto.

Durante décadas, aquilo foi as duas coisas ao mesmo tempo. Hotel no verão, lar no inverno. Foi pensado para o bom tempo: tectos de quatro metros, nem uma única lareira, época limitada aos meses quentes. Há histórias que dizem tudo. O pai da actual responsável, o mais novo de quatro irmãos, nasceu num quarto do próprio hotel, em abril, com a casa entregue à família; uma tia, nascida em agosto, teve de vir ao mundo noutro sítio, porque nessa altura os quartos estavam cheios de clientes.
A gestão passou do fundador para esse filho mais novo. Militar de carreira na Força Aérea, piloto, cumpriu comissões no Ultramar, em Angola e em Moçambique, e chegou a viver com a família na Beira no início dos anos 60. Estava colocado em São Jacinto, ali a um passo, quando o avô, já cansado, lhe entregou o leme. Foi ele quem modernizou a oferta, dotando os quartos de casa de banho e metendo obras a sério. A mãe tornou-se a cara da casa — a recepção, a decoração, o rosto que os hóspedes procuravam.

Em 2000, um AVC do pai virou tudo do avesso. A filha mais nova, Maria João Rosmaninho, então com 39 anos, largou uma carreira feita na engenharia civil e no ensino para não deixar cair a obra da família. Havia um compromisso acabado de assinar: um projecto de investimento com financiamento ao turismo, obras pesadas, aquecimento novo que, como resume a proprietária, num negócio que «trabalha seis meses por ano». O pai viria a falecer em 2010 ficando ela no leme do empreendimento familiar.

Uma coisa atravessa as três gerações: nunca houve dinheiro a mais. O avô, segundo a família conta, ergueu a casa quase sem capital próprio, apoiado sobretudo na palavra e no empréstimo de amigos. O pai já teve de se entender com a banca, e não foi fácil. Formas diferentes de fazer o mesmo: manter a porta aberta com pouco na mão.
A clientela mudou tanto quanto o país. Continua a ser sobretudo portuguesa, com alguns espanhóis e um punhado de estrangeiros atraídos precisamente pelo carácter antigo da casa. A cura termal de quinze dias, com o carro tapado à porta e os tratamentos de manhã e de tarde, deu lugar ao fim-de-semana e a estadas de quatro ou cinco dias. Resistem hóspedes fiéis que voltam há décadas e que se tornaram quase parte da família — há quem regresse há quase meio século, primeiro os pais, agora os filhos. Funcionárias antigas conhecem os clientes pelo nome, sabem-lhes as manias, guardam-lhes a mesa. E há anos que o pequeno-almoço, servido pela mesma mão, é motivo de elogio. A senhora Otília é parte da casa faz 16 anos e é quem, dia após dia, serve os pequenos-almoços que sentam toda a gente à mesa.

Vale a pena perceber o que rodeia a casa, porque é aí que a visita ganha corpo. A Curia fica em plena Bairrada, a meio caminho entre Coimbra e Aveiro, e por isso encaixa bem em quase qualquer viagem pelo centro do país. À volta há o parque termal, com o seu lago e as avenidas de sombra, boa parte da arquitectura Belle Époque que deu fama à vila, a mata do Buçaco a um passo e uma mesa que dispensa apresentações: o leitão e o espumante da Bairrada. Chega-se de carro pela A1 ou de comboio — a estação da Curia fica a poucos minutos a pé, na mesma linha do Norte que, há um século, começou por trazer os curistas e que levou depois tantos portugueses para longe.
Um pouco por toda a propriedade podemos encontrar peças de época. No primeiro andar, protegidas dentro de um armário, um conjunto que chamou à atenção.
A porcelana no padrão Rose Medallion (ou Família Rosa) carrega uma profunda ligação histórica com as antigas rotas marítimas portuguesas, servindo como uma ponte cultural que liga a Ásia e a África. Através do sistema de comércio estabelecido pelos portugueses a partir de Cantão, as peças cruas eram frequentemente finalizadas, pintadas e seladas em Macau—ostentando a icônica marca “Fabricado em Macau” nas suas bases em meados do século XX. A partir deste dinâmico entreposto asiático, vastos lotes desta loiça de exportação viajavam a bordo das naus que singravam o Oceano Índico. Ao longo destas rotas coloniais, o território de Moçambique funcionava como um ponto estratégico crucial de paragem, abastecimento e trocas comerciais, fazendo com que esta porcelana ricamente ornamentada se espalhasse pelas residências e coleções aristocráticas da costa moçambicana e, eventualmente, chegasse às mesas de todo o mundo lusófono.

Falando agora de futuro, esse tem já um nome, José Pedro, 31 anos, formado em restauro, é o único dos filhos verdadeiramente agarrado à casa. Quando parte de um tecto de estuque cedeu, em 2018, foi ele quem recolheu as peças aproveitáveis, tirou moldes e reconstruiu as sancas como estavam. A irmã, Maria Miguel, de letras, vive em Coimbra e segue vida própria, mas raramente falha um fim-de-semana para ver a avó. Curioso é o padrão que a casa foi cumprindo: o testemunho tem passado sempre para o mais novo — foi assim com o pai, foi assim com ela, e será assim com o filho.

Fora de época, a casa fecha por uma razão simples de contas. De 1 de novembro a 31 de março, as portas cerram-se. Aquecer com gás um edifício de tectos altíssimos, feito para o calor, não compensa só para abrir ao fim-de-semana. À Curia falta movimento no inverno, e a proprietária deixa o reparo: sem uma aposta pública que fixe gente e traga visitantes fora do verão, um sector tão sazonal dificilmente se sustenta.
Para quem vive no Luxemburgo, isto pode ser bem mais do que uma curiosidade. Numa próxima ida a Portugal — e não é preciso ter nascido lá para o querer conhecer — vale o desvio até à Curia: um fim-de-semana fora do tempo, sem grandes luxos, mas com o conforto raro de uma casa onde ainda se recebe cada hóspede pelo nome. A época quente é a certa, quando o parque reverdece e a Bairrada convida a ficar mais um dia.
Cem anos depois, a casa continua a fazer o mesmo que fazia o primeiro Rosmaninho: abrir a porta e esperar por quem chega. Só falta ir.


