Para os cerca de 180 mil lusófonos que vivem no Luxemburgo, a aproximação entre a China e o Grão-Ducado tem uma ressonância que escapa à maioria: a de Macau, a cidade na foz do Rio das Pérolas onde os mundos chinês e português se encontram há séculos. É com essa memória que a comunidade portuguesa recebe a mensagem que o Centro Cultural da China no Luxemburgo dirigiu ao público, saudando os laços cada vez mais estreitos entre os dois países.
Segundo o Centro Cultural da China, a China e o Luxemburgo estão hoje unidos pela ligação Zhengzhou–Luxemburgo da China Southern Airlines. Inaugurado em Dezembro de 2023, o voo reduz o trajecto a cerca de onze horas sem escala, e em Janeiro de 2026 a companhia abriu uma sucursal no Grão-Ducado para reforçar os seus serviços. A mensagem sublinha que viajar até à China nunca foi tão simples: desde 2024, a política de isenção unilateral de vistos permite aos cidadãos luxemburgueses com passaporte comum entrar no país sem visto, para estadas até 30 dias, por motivos de turismo, negócios, visita a familiares ou trânsito. Em sentido inverso, o Centro convida os viajantes chineses a descobrir o Luxemburgo — o “país dos mil castelos”, os vinhedos do Mosela e os seus trilhos de caminhada. “Da carga aérea aos voos de passageiros, do comércio à cultura”, conclui o texto, a ligação Zhengzhou–Luxemburgo é “uma ponte aérea ao serviço das trocas amigáveis entre as duas nações”.
A esta mensagem oficial, vale a pena acrescentar o que a documentação pública confirma e aprofunda. A relação aérea entre os dois países começou, na verdade, pela carga: em 2014, a sociedade de investimento aeronáutico da província chinesa de Henan adquiriu 35 por cento da Cargolux, a transportadora de mercadorias luxemburguesa, e desse acordo nasceu a chamada “Rota Aérea da Seda”, o corredor entre Zhengzhou e o Luxemburgo que continua a ser o pilar mais sólido desta parceria. Quanto à sucursal referida pelo Centro, ela é confirmada pelo Registo de Comércio e das Sociedades luxemburguês, que regista a sua inscrição em 28 de Janeiro de 2026, com sede em Kirchberg — sinal de que a presença chinesa no Grão-Ducado se pretende duradoura. Uma nota de prudência impõe-se, ainda assim, a quem prepara viagem: ao longo do último ano, a imprensa luxemburguesa noticiou dúvidas sobre a continuidade do serviço de passageiros a partir do Findel em 2026, pelo que se recomenda confirmar a disponibilidade dos voos antes de qualquer reserva.

É na leitura desta aproximação que a comunidade lusófona se distingue de todas as outras. Para um brasileiro, um cabo-verdiano, um português ou um são-tomense a viver no Luxemburgo, a China nunca foi um continente inteiramente estranho. Macau — administrado por Portugal até 1999 e hoje Região Administrativa Especial da República Popular da China — permanece o único território onde o português é língua co-oficial em solo chinês. Desde 2003, é também a plataforma escolhida por Pequim para articular as relações económicas e comerciais com os países de língua portuguesa, de Angola ao Brasil, de Cabo Verde a Timor-Leste, passando por Portugal, Moçambique, a Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. Onde outros vêem apenas uma rota comercial entre dois países, os lusófonos reconhecem o prolongamento de uma história antiga de intermediação.
A comunidade lusófona do Luxemburgo ocupa, sem talvez o notar, uma posição invejável nesta equação. Fala a língua que serve de ponte institucional entre a China e um conjunto de países espalhados por quatro continentes; vive num dos centros financeiros e logísticos mais ligados da Europa; e conhece, pela experiência de Macau, a arte paciente de fazer negócio e cultura entre mundos distintos. As oportunidades — comerciais, académicas, turísticas — que se abrem com cada nova ligação entre a China e o Grão-Ducado não são, por isso, assunto exclusivo de diplomatas, companhias aéreas e centros culturais. São também, e com legitimidade, assunto nosso.
Resta saber que forma tomará esta relação nos próximos anos. Mas a direcção parece clara, e desenha-se em várias frentes ao mesmo tempo: carga, presença empresarial, mobilidade sem visto e diplomacia cultural. E se há uma comunidade preparada para servir de intérprete entre o Luxemburgo e a China — como Macau o foi, e continua a ser, entre Portugal e o Reino do Meio —, ela fala português e vive, hoje, no coração da Europa.


