O convívio à volta de mesas fartas, a bênção de ramos de ervas silvestres e a devoção mariana fazem do 15 de agosto uma das datas mais vivas do calendário luxemburguês. Conhecido localmente como Léiffrawëschdag, o feriado da Assunção de Maria ultrapassa o significado religioso católico — o de que a Virgem Maria foi elevada ao céu em corpo e alma — e afirma-se como uma das festas populares mais ricas do ano no Grão-Ducado. Pesa nele a herança histórica do país. Pesa também a fusão cultural com a numerosa comunidade lusófona aqui residente.
O Luxemburgo é, do ponto de vista constitucional, um Estado laico. Ainda assim, a sua legislação laboral protege com firmeza onze feriados legais de raiz histórica, e o 15 de agosto é um deles. A relevância da data explica-se pela profunda ligação do território à figura de Maria. Em 1666, num tempo marcado por guerras e pela peste negra, o país foi oficialmente colocado sob a protecção de Maria, com o título de Consolatrix Afflictorum — a Consoladora dos Aflitos —, tornando-se ela a padroeira do Grão-Ducado. Desde então, este dia tem sido entendido como um pilar da identidade nacional e um momento obrigatório de descanso e celebração.
Há um pormenor que distingue o 15 de agosto luxemburguês de quase todos os outros. Chama-se Kraiderwësch (em alemão, Krautwisch). Esta tradição milenar funde rituais pagãos de colheita com o cristianismo e consiste em colher e benzer um ramo de ervas silvestres aromáticas e cereais. A «receita» do ramo obedece a regras antigas: deve reunir um número específico de plantas — por vezes sete, nove ou doze —, distribuídas por três categorias. Entram ervas medicinais, como a camomila, o hipericão e o milefólio, para garantir saúde. Entram cereais da época, como o trigo, a aveia e o centeio, em agradecimento pelas colheitas e como promessa de alimento. E entram plantas de odor intenso, como folhas de nogueira, para afastar o mal.
O gesto tem um destino certo. Os ramos são levados à missa da manhã para receberem a bênção do padre. Depois, cada família os leva para casa e pendura-os na cozinha ou nos estábulos. Reza a tradição popular que o ramo, já seco, protege a habitação contra doenças, incêndios e trovoadas ao longo de todo o ano.
À mesa, o feriado das colheitas pede comida farta e de sabor rural. O prato-rei é o Ham, Fritten an Zalot: presunto fumado local, ou fiambre rústico, servido com batatas fritas e uma salada verde generosa. Ao lado surgem os Gromperekichelcher, as estaladiças pataniscas de batata luxemburguesas, fritas na hora e idealmente acompanhadas por puré de maçã. Como é uma festa que celebra a terra, as refeições regam-se com os vinhos brancos da Mosela e com o espumante Crémant, nascido nas encostas do rio. O grande ponto de encontro nacional é a aldeia vinícola de Greiveldange, que todos os anos organiza um festival tradicional de paragem obrigatória neste dia.
A poucos quilómetros de distância, porém, tudo muda. Em França e na Bélgica, o 15 de agosto é igualmente feriado nacional. Do lado francês, o dia enche-se de grandes procissões de velas, à imagem de Lourdes; na Bélgica, além do cariz religioso, a região de Antuérpia aproveita a data para assinalar o Dia da Mãe. Na Alemanha, o cenário é bem diferente, já que não se trata de feriado nacional. Só os residentes do estado do Sarre, fronteiriço com o Luxemburgo, e das comunas de maioria católica da Baviera têm direito a folga. Nessas regiões alemãs católicas também se faz a bênção das ervas — a Kräuterweihe —, mas sem o estatuto de festa nacional que a data assume no Grão-Ducado.
Para a comunidade de língua portuguesa do país, que representa mais de 15% da população, o 15 de agosto é uma data familiar. Só que, na Lusofonia, os ramos de ervas dão lugar ao mar e à música. Em Portugal, um dos feriados mais celebrados do verão vive-se com intensidade nas zonas costeiras, de Viana do Castelo à Póvoa de Varzim, através das procissões marítimas, em que os barcos de pesca surgem sumptuosamente enfeitados para abençoar o mar e pedir protecção para os pescadores. No Brasil, a data não é feriado federal, mas sim municipal em várias capitais, como Belo Horizonte ou Fortaleza; ali, a festa ganha contornos de sincretismo religioso e expressões afro-brasileiras, transformando-se muitas vezes em grandes festas de rua de forte pendor musical. Em Cabo Verde, na ilha da Boa Vista, o dia coincide com a festa de Nossa Senhora da Piedade, celebrada com as famosas corridas de cavalos, jantares comunitários e o inconfundível batuque.
É neste cruzamento que o Grão-Ducado se revela. Enquanto adoptam o hábito de comprar ou colher o seu Kraiderwësch e de provar o Ham, Fritten an Zalot nas festas locais, os portugueses residentes trazem para as igrejas luxemburguesas a devoção e a alegria próprias das festas de verão lusas. Poucos dias no país reúnem tanta gente e tantas heranças diferentes à volta da mesma data.


