Há pessoas que se conhecem uma vez e se esquecem. Outras ficam presas a lugares, a momentos, a uma certa maneira de estar. Rui Nabeiro, para mim, é da segunda espécie. E, por estranho que pareça, a minha história com o fundador da Delta não começou em Campo Maior, nem numa fábrica de café, nem sequer em Portugal.
Cruzámo-nos pela primeira vez em março de 2000, em Timor quando me encontrava ao serviço do jornal Macau Hoje a cobrir o processo de independência de Timor Leste. Seis anos mais tarde, em setembro de 2006, voltámos a encontrar-nos, desta vez em Macau, visita que viria a dar origem ao Ruby Café na Doca dos Pescadores. Dois lugares separados por milhares de quilómetros e por seis anos. Duas realidades sem nada em comum. E, no entanto, havia sempre o mesmo fio a repetir-se: o café português e um homem que fazia questão de o levar para onde houvesse portugueses. Não era só comércio. Era proximidade. Talvez seja por isso que, quando penso hoje em Campo Maior, penso também nessas duas memórias.

A vila alentejana, junto à fronteira espanhola, foi onde tudo começou. Ali nasceu Rui Nabeiro, em 1931, numa família modesta ligada ao comércio e ao café. Ali trabalhou desde muito novo. E ali, em 1961, arriscou e criou a Delta, numa pequena torrefacção de cerca de 50 metros quadrados. O que veio depois pertence à história empresarial portuguesa: aquele armazém deu lugar a um grupo internacional, e o nome Delta passou a ser reconhecido muito para lá de Campo Maior.
Mas a verdadeira dimensão desta história está, talvez, no facto de o crescimento nunca ter apagado a origem. A terra continuou a ser o centro da sua identidade. O empresário viajava, reunia-se com gente de vários países, abria mercados — e havia sempre um lugar ao qual regressava. A casa onde nasceu é a expressão mais simples dessa ligação afectiva.
É essa casa que, durante as Festas do Povo de 2026, abre pela primeira vez as portas ao público. É pouco espaço. Mas concentra muito: quem entrar estará no lugar onde começou a vida de um homem que acabaria por levar o nome da sua terra muito para além do Alentejo. A abertura acontece num momento particularmente simbólico, na primeira edição das festas desde a sua morte.
Entre hoje e 16 de agosto, Campo Maior volta a transformar-se. Depois de onze anos de espera — a última edição realizou-se em 2015 —, as ruas enchem-se outra vez das tradicionais flores de papel, preparadas durante meses pelos próprios habitantes. As Festas do Povo são uma obra colectiva: milhares de flores feitas à mão, uma vila inteira convertida numa espécie de enorme montra popular, uma comunidade que decide, ela mesma, quando a festa acontece. E é precisamente essa palavra — comunidade — que melhor explica a relação entre Rui Nabeiro e a sua terra. Ele não construiu apenas uma empresa. Construiu uma pertença.
Foi essa dimensão internacional que me fez voltar a cruzar-me com ele tão longe do Alentejo. Em 2000, num Timor que vivia então uma realidade profundamente diferente da actual, num período marcante da sua história. Em 2006, em Macau, outro território, outro contexto, a mesma marca portuguesa a servir de ponto de encontro numa cidade onde a presença de Portugal deixou raízes fundas. Café. Sempre o café.

E agora o Luxemburgo é mais um desses lugares. A Delta está presente no Grão-Ducado através da sua estrutura local, integrada na rede que levou a marca a diferentes mercados. Para a numerosa comunidade portuguesa que aqui vive, tornou-se uma presença corriqueira — em cafés, em restaurantes, no comércio e nas próprias casas. Um expresso depois do almoço. Uma conversa ao balcão. Um hábito trazido de Portugal e mantido noutro país. Por detrás dessa chávena está, afinal, uma vila alentejana, uma família e um rapaz chamado Rui.
Este verão, milhares de pessoas vão chegar a Campo Maior para ver as ruas cobertas de flores. Umas pela tradição, outras pela curiosidade, outras para descobrir uma das manifestações populares mais singulares do país. E algumas poderão, pela primeira vez, entrar na casa onde tudo começou. É aí, talvez, que a história se torna mais fácil de entender: antes de a Delta, antes de Timor, antes de Macau, antes do Luxemburgo, havia uma porta, numa rua estreita, numa vila do Alentejo. As festas continuam a ser feitas pelas mãos de quem lá vive. A marca continua a levar o nome de Campo Maior para outros países. E as comunidades portuguesas continuam a levar consigo pequenos pedaços das suas terras de origem. Da casa de Campo Maior às ruas floridas, de Timor a Macau, de Portugal ao Luxemburgo — a história de Rui Nabeiro foi, também, uma história de viagens. Mas todas começaram no mesmo sítio.


