A convicção de que a democracia não sobrevive graças às tecnologias nem se sustenta apenas pelas instituições, mas vive sobretudo do empenho dos cidadãos e da transmissão de valores entre gerações, atravessou os três discursos oficiais proferidos esta manhã na Filarmónica do Luxemburgo, no âmbito das celebrações da festa nacional. A cerimónia assumiu este ano um significado particular, por ter sido a primeira assinalada sob o reinado do grão-duque Guillaume, que subiu ao trono a 3 de outubro do ano passado e que se apresentou pela primeira vez perante o país nesta data enquanto chefe de Estado.
No discurso que dirigiu em especial aos mais jovens, o soberano colocou a ideia de continuidade e de transmissão no centro da sua intervenção, recordando que uma nação vive antes de mais através do seu povo e daquilo que se transmite de geração em geração — os valores, o sentido de responsabilidade e a confiança num futuro comum. Para ilustrar essa mensagem, deteve-se em três símbolos da jornada. O tradicional cortejo de tochas que percorreu a cidade na noite anterior, reunindo diferentes gerações, nacionalidades e associações, foi apresentado como imagem de uma democracia que, isolada, é vulnerável, mas que, em conjunto, ilumina toda uma comunidade. O desfile militar e civil na nova Avenida da Liberdade serviu para lembrar que a liberdade nunca é uma conquista definitiva, num agradecimento expresso aos militares, polícias e serviços de socorro que cumpriram a sua missão apesar das temperaturas de canícula. E a própria cerimónia foi descrita como o símbolo de um país fundado no diálogo, onde se encontram gerações, profissões, culturas e convicções distintas.
O grão-duque advertiu ainda para os desafios de uma época em que a inteligência artificial, as tecnologias digitais e a circulação cada vez mais rápida da informação transformam a forma de trabalhar, pensar e participar na vida pública, num contexto em que a própria verdade pode parecer incerta. Perante essa realidade, defendeu que a democracia se preserva através de cidadãos que escutam antes de julgar e que exercem o espírito crítico, sublinhando que ela não assenta na acção de um só, mas no compromisso de todos. Numa referência directa ao actual quadro de segurança no continente, afirmou que «a nossa liberdade hoje começa já na Ucrânia», alertando para que a paz na Europa deixou de poder ser considerada um dado adquirido. Saudou igualmente o reencontro dos parceiros sociais no início do mês para reavivar o espírito de diálogo e de compromisso que caracteriza o modelo luxemburguês, e deixou aos jovens a ideia de que «não estamos aqui apesar das nossas diferenças, mas com as nossas diferenças».
A reflexão sobre aquilo que verdadeiramente define o país foi também o eixo da intervenção do primeiro-ministro Luc Frieden, para quem o Luxemburgo se reconhece, acima de tudo, nas mulheres e nos homens que nele vivem. Recordando os encontros que mantém com voluntários, jovens, futuros polícias, soldados e bombeiros, empresários e famílias instaladas há gerações ou chegadas mais recentemente, o chefe do Governo destacou a disponibilidade dos habitantes para assumirem responsabilidades e se colocarem ao serviço dos outros. Sublinhou que a sociedade luxemburguesa sempre foi diversa e que, ao longo das gerações, houve algo mais forte do que as diferenças: a convicção de que só é possível avançar privilegiando o diálogo e a procura de entendimento. Reafirmou o compromisso do país com a democracia, a paz, a liberdade e os direitos humanos, bem como o seu enraizamento no projecto europeu, assente na ideia de que a cooperação leva mais longe do que a confrontação. Numa primeira festa nacional celebrada em honra do grão-duque Guillaume, Frieden manifestou confiança no futuro e recordou que, há dois anos, o grão-duque Henri afirmara, naquele mesmo local, acreditar na geração mais nova, considerando que os primeiros nove meses de reinado do filho, ao lado da grã-duquesa Stéphanie, confirmaram essa aposta.
O presidente da Câmara dos Deputados, Claude Wiseler, trouxe ao debate as preocupações que recolhe nas visitas que faz a escolas e universidades, notando que as perguntas dos jovens mudaram profundamente em poucas décadas e incidem hoje sobre política externa, guerra e paz, democracia e segurança, verdade e manipulação ou o futuro do trabalho. Lamentou o desaparecimento de um optimismo que outrora caracterizava a juventude e confessou o receio que lhe causa o facto de alguns concidadãos, antes empenhados na vida cívica, evitarem agora as notícias por as considerarem demasiado inquietantes. Defendeu que, para progredir, o país deve reconhecer as suas fragilidades — entre elas uma excessiva dependência do exterior — e desenvolver os seus pontos fortes: a tradição de liberdade evocada no hino nacional, com o verso «Filhos, recebemos de Ti o espírito da liberdade»; a capacidade de acolher e integrar, ao longo de mais de um século, quem chegou em busca de trabalho e talento; uma sociedade alicerçada em valores e na procura de consenso; e o percurso de um pequeno país que, encravado entre vizinhos poderosos, se afirmou como membro fundador da UE, do Conselho da Europa, da ONU, da OTAN, da OSCE, da OMS e da OMC.
Wiseler recordou ainda a sucessiva reinvenção económica do Luxemburgo — da siderurgia ao sector financeiro, dos serviços às comunicações e aos meios de comunicação, até ao espaço e aos satélites —, atribuindo essa trajectória à coragem de decidir e de assumir riscos, e questionou se essa mesma audácia se mantém actualmente. Os três discursos convergiram, no essencial, numa mesma leitura: a de que a democracia, a liberdade e os valores comuns não se defendem apenas com palavras, mas com empenho político, voluntariado, sentido de responsabilidade quotidiana e solidariedade, e que cabe sobretudo às novas gerações dar continuidade a esse legado, num diálogo em que os mais velhos transmitem a experiência e os mais novos a questionam e adaptam ao seu tempo. Todas as intervenções terminaram com a saudação ao Grão-Ducado e à Europa, num apelo comum à coesão num momento marcado pela guerra no continente e pela aceleração das transformações tecnológicas.


