A ausência da selecção chinesa do Campeonato do Mundo não impediu que a China se tornasse uma presença constante em quase todas as dimensões da competição que decorre nos Estados Unidos, no Canadá e no México. Da arbitragem aos ecrãs que decidem lances polémicos, dos comboios que transportam adeptos aos artigos vendidos junto aos estádios, a indústria, a tecnologia e a cultura chinesas estão profundamente integradas no torneio — um sinal de como o país deslocou a sua aposta da simples publicidade para o fornecimento de infra-estruturas e serviços ao mais alto nível.
O rosto mais comentado é o do árbitro Ma Ning, o único juiz chinês a dirigir jogos nesta edição. Conhecido na China pela alcunha de «Mestre dos Cartões», pelo estilo rigoroso que o celebrizou no campeonato nacional, Ma tornou-se uma improvável figura de orgulho nacional num país cuja selecção não se qualifica desde 2002. Segundo a CNN e o South China Morning Post, a sua estreia como árbitro principal — no empate sem golos entre o Equador e Curaçau, em Kansas City — marcou a primeira vez em 24 anos que um chinês apita um encontro do Mundial, desde Lu Jun em 2002. No Qatar, em 2022, Ma desempenhara apenas funções de quarto árbitro. Acompanham-no o árbitro assistente Zhou Fei e o videoárbitro Fu Ming, e a sua deslocação conta com o patrocínio das gigantes tecnológicas Lenovo e Hisense.
A componente tecnológica é, porém, a mais profunda. A Lenovo é a parceira tecnológica oficial da FIFA e, de acordo com a própria empresa e com a CNN, fornece servidores, dispositivos e soluções de inteligência artificial em todos os recintos do torneio. Entre as inovações estão avatares tridimensionais dos jogadores, gerados a partir de digitalizações corporais, que ajudam os árbitros nas decisões de fora-de-jogo e tornam as repetições mais claras para os espectadores. Já a Hisense, segundo a agência Xinhua e o Global Times, foi escolhida como fornecedora dos ecrãs de apoio ao sistema de videoarbitragem, equipando o Centro Internacional de Radiodifusão e o centro de videoárbitros instalados em Dallas.
Fora dos estádios, a marca chinesa é igualmente visível. Nas três cidades-sede mexicanas — Cidade do México, Monterrey e Guadalajara —, circulam 115 comboios ligeiros fabricados pela CRRC, concebidos para a altitude e as condições locais, que asseguram, de acordo com o Global Times, mais de 1,25 milhões de viagens diárias de adeptos. Na capital mexicana, cerca de 95 por cento dos 800 autocarros eléctricos colocados ao serviço do torneio são de fabrico chinês, sobretudo das marcas Yutong e BYD. A própria renovação do histórico Estádio Azteca, que recebe um Mundial pela terceira vez, foi conduzida por um grupo de construção chinês.
No plano dos bens de consumo e da cultura, o domínio é antigo mas tem-se transformado. A cidade de Yiwu, conhecida como o «supermercado do mundo», continua a ser o principal centro de produção de artigos para adeptos — camisolas, bandeiras, cachecóis, chapéus e bonecos —, tendo representado cerca de 70 por cento dos souvenirs do Mundial de 2022, proporção que se espera repetir em 2026. A própria bola oficial da prova, a TRIONDA, é produzida numa fábrica da província de Guangdong que abastece a Adidas. E, pela primeira vez na história do torneio, uma propriedade intelectual original chinesa subiu ao palco da cerimónia de abertura, na Cidade do México: o Labubu, da marca Pop Mart, surgiu em forma de duas grandes mascotes envergando camisolas de futebol, conforme noticiaram a Xinhua e o Global Times.
Esta presença reflecte uma mudança de estratégia mais ampla. De acordo com o Global Times, restam apenas três empresas chinesas — Lenovo, Hisense e Mengniu — entre os patrocinadores oficiais da FIFA, um número bem inferior ao das edições anteriores. Mas, longe de traduzir desinteresse, esse recuo na publicidade tradicional acompanha um avanço para o interior das operações do torneio. Em vez de comprarem visibilidade nos painéis dos estádios, as empresas chinesas procuram agora demonstrar capacidades tecnológicas e integrar-se na própria espinha dorsal dos grandes acontecimentos desportivos internacionais — um percurso que, mesmo sem equipa em campo, coloca a China no centro do maior espectáculo do futebol mundial.


