A retenção prolongada de estudantes guineenses à chegada ao Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, transformou-se numa fonte crescente de preocupação e motivou a mobilização de várias associações, que pressionam as autoridades portuguesas e a Embaixada da Guiné-Bissau em Lisboa no sentido de encontrar uma solução. Em causa estão alegadas falhas na documentação que conduzem à permanência dos jovens nas instalações aeroportuárias durante horas ou, em alguns casos, vários dias.
O caso de Morida Biofa, estudante guineense de apenas 19 anos, ilustra a dimensão do problema. Chegou a Portugal a 1 de Maio para iniciar o curso de Contabilidade e Gestão no Instituto Politécnico da Lusofonia, mas foi retida logo após o desembarque. Segundo o seu relato, depois de entregar o passaporte a um agente policial, foi questionada sobre o motivo da deslocação; ao responder que vinha estudar, foi informada de que a declaração de matrícula se encontrava fora de prazo e encaminhada para um segundo controlo documental. Nessa segunda fase, e após concordar em assinar um documento que o autorizava, a jovem foi sujeita a um interrogatório prolongado que culminou na recusa de entrada no país por motivos documentais. Biofa lamenta que, durante os dois dias em que permaneceu retida, tenha sido obrigada a dormir no chão, só conseguindo sair do aeroporto graças à intervenção de uma advogada.
De acordo com a Deutsche Welle, o número de estudantes confrontados com retenções semelhantes aumentou desde 2024, frequentemente por questões burocráticas como a falta de um termo de responsabilidade ou a chegada tardia ao território português, circunstâncias que, em muitos casos, não dependem dos próprios alunos. Maiquel José Indi, presidente da associação académica Mobilidade de Estudantes da Guiné-Bissau em Portugal, classifica o tratamento dispensado aos jovens como «desumano» e critica os procedimentos das autoridades portuguesas, que, no seu entender, dificultam a entrada de alunos com a documentação em ordem. O dirigente recorda que um estudante que já obteve visto reúne as condições necessárias para entrar em Portugal.
Perante este cenário, as associações esperam que as autoridades guineenses adoptem uma nova postura de cooperação com Portugal, de modo a evitar futuros repatriamentos, e recomendam que os estudantes contactem a coordenação permanente em Bissau para prepararem devidamente as suas deslocações antes de viajarem. Jucimile Correia Seabra, presidente da Associação de Estudantes Guineenses em Lisboa, manifesta idêntica preocupação e apela a uma resposta urgente e eficaz de todas as partes, defendendo que o envolvimento das entidades consulares é essencial para assegurar maior transparência e justiça nos processos de concessão de vistos. O Governo português anunciou, por seu lado, a criação de dois centros de acolhimento temporário para imigrantes no aeroporto de Lisboa, com o objectivo de garantir dignidade e segurança àqueles que se encontram em situação irregular.


