A escritora e activista social moçambicana Énia Lipanga foi seleccionada para fazer parte do ciclo II do Fundo de Investimento para a Criação de Obras Digitais no Oceano Índico, uma iniciativa que visa apoiar projectos inovadores nas áreas cultural e digital da região.
Para Énia Lipanga, a inclusão neste fundo representa “a concretização de um sonho e, ao mesmo tempo, uma responsabilidade acrescida em relação ao público que pretendo alcançar”. O apoio financeiro que irá receber permitirá à autora custear etapas essenciais do seu projecto, transformando o seu livro numa experiência acessível também na forma de áudio.
A escritora enfatizou que a sua eleição não é apenas um reconhecimento individual, mas sim um importante avanço colectivo, especialmente no que concerne ao espaço que as mulheres escritoras estão a conquistar. “O país beneficia sempre que uma moçambicana é reconhecida e apoiada”, afirmou.
Entre os cinco artistas e projectos escolhidos para este ciclo, Énia Lipanga destaca Moçambique no contexto da criação contemporânea, realçando a presença de narrativas autorais comprometidas com questões sociais e o acesso democrático à cultura. Este fundo, promovido pela Comissão do Oceano Índico no âmbito do projecto de Indústrias Culturais e Criativas (ICC), com o apoio da Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD), procura impulsionar a produção de conteúdos digitais inovadores que tenham um impacto significativo.
A proposta de Énia Lipanga centra-se na adaptação do seu mais recente livro, “Nada Será Devolvido em Silêncio”, publicado no Brasil, para o formato de audiobook. A autora sublinha que o projecto vai além de uma simples transposição de linguagem; a sua intenção é expandir o alcance da literatura para além das barreiras tradicionais de leitura. A obra pretende alcançar mulheres que não tiveram acesso à alfabetização, bem como pessoas com deficiência visual, criando novas oportunidades de escuta e pertencimento.
Reconhecida pela sua escrita feminista, Énia Lipanga traz para este projecto uma abordagem sensível e politicamente consciente, onde a palavra falada se transforma numa ferramenta de inclusão e transformação social. “Quero que a minha literatura seja ouvida por aqueles que nunca puderam lê-la. Que estas histórias cheguem a vidas, mesmo quando os olhos não as podem alcançar”, declara a autora.
A participação no fundo permitirá o desenvolvimento de uma obra digital com um impacto social directo, contribuindo para a democratização do acesso à literatura em Moçambique e na região do Oceano Índico.
Énia Lipanga é uma escritora, poetisa, jornalista e activista moçambicana que cruza arte, direitos humanos e inclusão, focando-se na valorização das mulheres e das pessoas com deficiência. É curadora do projecto Palavras São Palavras e mentora do movimento Incluarte. Já representou Moçambique em diversos países e é autora de várias obras de poesia. Recentemente, foi nomeada uma das 10 mulheres mais inspiradoras de 2022 e está entre as 100 personalidades negras mais influentes da lusofonia.


