A travessia entre dois continentes, dois imaginários e treze corpos em cena culminou com o último espectáculo de Frágil. Durante três dias, a Sala Roberto Krieps, na Abbaye de Neumünster, transformou-se num território íntimo feito de gestos, silêncios e afectos, encerrando uma temporada construída com rigor técnico e profunda entrega emocional.
A peça, com direcção e coreografia de Moa Nunes e a participação do coreógrafo convidado Fernando Lima, reuniu treze bailarinos: dez brasileiros e três luxemburguesas. A proposta cénica recusa esconder as fragilidades humanas e faz delas a própria matéria da dança, convidando o público a sentir antes de compreender, num exercício artístico em que a vulnerabilidade se torna linguagem partilhada.
As três sessões, realizadas na quinta e sexta-feira ao final do dia e no sábado em horário duplo, atraíram públicos heterogéneos, ligados tanto à comunidade brasileira no Luxemburgo como ao universo da dança contemporânea local. A última apresentação foi vivida pelos artistas com particular intensidade emocional, sentimento que Fernando Lima partilhou em declarações exclusivas ao LetzebuergcHoje após o fecho da cortina.
Um intercâmbio cultural para lá do palco
Para o coreógrafo convidado, a temporada no Luxemburgo ultrapassou amplamente o exercício artístico. «A emoção de poder fazer um trabalho de intercâmbio, porque além de dança é um intercâmbio cultural», sublinhou Fernando Lima. O criador destacou que proporcionar a um elenco maioritariamente jovem o contacto com outra cultura e outro continente foi uma das dimensões mais ricas de todo o projecto, traduzindo-se, nas suas palavras, em «muito aprendizado, muita riqueza, muito amor por aquilo que a gente faz».
Apenas dois bailarinos do elenco brasileiro tinham já pisado um palco fora do país, há alguns anos, numa primeira passagem pelo Luxemburgo. Para todos os restantes, foi a primeira vez. «O restante são todas pela primeira vez», confirmou o coreógrafo, salientando que tudo foi preparado com carinho e responsabilidade «para que a gente pudesse trazer o melhor que pudesse fazer». A presença de três bailarinas luxemburguesas no elenco ampliou o cruzamento de experiências, reforçando o carácter internacional da obra.
A arte como ponte entre comunidades
Fernando Lima descreveu o gesto artístico como um acto de partilha profunda. «A gente faz a arte para tocar o outro. Primeiro a gente faz para alimentar a nossa alma. Segundo é para que toque o outro», afirmou. A resposta calorosa do público ao longo das três sessões foi vivida pelo coreógrafo como satisfação e dever cumprido. «A gente ter atravessado o oceano para que pudesse estar aqui e tocar o coração das pessoas», acrescentou, resumindo o sentido último de toda a empreitada.
A última actuação contou ainda com a presença do Cônsul Honorário do Brasil no Luxemburgo, André Bezerril, gesto institucional que reforçou o valor simbólico do encontro entre as comunidades brasileira e luxemburguesa em torno da dança. A presença consular conferiu maior alcance a um projecto que, desde o seu desenvolvimento em outubro de 2025 no Brasil, foi concebido como ponte cultural entre os dois países, e veio sublinhar o reconhecimento da diplomacia brasileira ao trabalho apresentado em palco.
Concluída a passagem pelo Luxemburgo, o elenco prepara-se agora para participar num dos maiores festivais de dança do mundo, no Brasil, onde a companhia entrará em competição. Fernando Lima confessou ao Letzebuerg Hoje a necessidade de uma pausa após um percurso intenso, iniciado em outubro do ano passado e marcado por trabalho constante aos fins-de-semana. «Agora a gente precisa dar uma respirada e pensar nos novos projetos», resumiu o coreógrafo, deixando em aberto a possibilidade de futuros reencontros entre a sua arte e o público luxemburguês.


