Jovens luso-luxemburgueses dão nova vida às rusgas no Grão-Ducado
E se lhe dissermos que a alma do Minho, com as suas rusgas e concertinas, está a ser reinventada por adolescentes que nasceram no Luxemburgo? Foi exactamente isso que aconteceu no dia 6 de maio de 2024, quando um grupo de jovens decidiu que estava na hora de mudar o ritmo da tradição. Ao Letzebuerg Hoje confessaram que a ideia partiu de André Leite e Inês Matos, que na altura tinham apenas 16 e 17 anos. Cansados de ouvirem “sempre as mesmas músicas” nos eventos da comunidade portuguesa, resolveram fundar o Grupo de Rusgas Nortenhos Alegres. Hoje, com 18 anos recém-feitos, André é presidente e Inês vice-presidente de uma equipa que soma cerca de 34 voluntários. “É o amor que se tem à cultura. À cultura dos meus pais, que também é a minha cultura, mesmo não tendo nascido em Portugal”, explica André Leite, resumindo o sentimento de muitos jovens luso-descendentes no Grão-Ducado. Inês Matos completa: “Queremos mostrar aos jovens que isto tem que seguir em frente e não ter medo de mostrar a nossa cultura.”
Longe de serem principantes, os Nortenhos Alegres já marcaram presença no prestigiado cortejo do Dia Nacional do Luxemburgo, em 2025, levando as suas concertinas e trajes à cidade do Luxemburgo. Agora, preparam dois eventos de peso. O primeiro já no próximo dia 18 de julho: um encontro de concertinas no Café Viva Lounge, em Niederkorn. A tarde e a noite prometem grelhada mista, jantar e, claro, muita animação, incluindo uma actuação do grupo amigo “Raízes Minhotas” e dos professores Manuel Magalhães e Carlos Lima. Haverá ainda palco livre para quem quiser pegar no instrumento e tocar. Mas a grande aposta chega a 10 de outubro, com a sua primeira grande rusga: a “Nortenhos Festa”. O evento contará com oito a nove grupos convidados, oriundos de norte a sul do país, num tributo à gratidão por todo o apoio recebido desde a fundação. Para os mais curiosos, fica a explicação: ao contrário do acordeão, que tem teclas como as de piano, a concertina possui botões dos dois lados e um som distintamente diferente. “Às vezes os nossos amigos pensam que é um acordeão, mas nós explicamos que não”, ri-se Inês.
Pedem apoio à comuna para ensaiar sem incomodar
Apesar da garra e do entusiasmo, nem tudo são facilidades. Os jovens ensaiam todas as terças-feiras à noite num café. Há meses que o grupo tem um pedido formal por escrito dirigido à comuna de Sanem: uma sala modesta, apenas uma hora e meia por semana, para poderem tocar sem incomodar clientes ou comerciantes. “Somos muito gratos por nos darem esse espaço no café, mas gostaríamos de ter um local nosso, em privado, para fazer a nossa música”, confessa André. Até agora, a resposta da autarquia continua a ser esperada, o que contrasta com o voluntariado e a oferta cultural que o grupo oferece gratuitamente à comunidade. Ainda assim, os ensaios estão abertos a todos os curiosos. Quem quiser aparecer para ouvir, aprender a dançar ou simplesmente conviver pode fazê-lo às terças-feiras, das 20h30 às 21h30, bastando contactar o grupo para saber o local exato. Os Nortenhos Alegres podem ser encontrados no Facebook como “Nortenhos Alegres” e no Instagram como “Grupo de Rusgas Nortenhos Alegres”.
Ao ouvir falar destes jovens, a sensação é de esperança. Nascidos e criados no Luxemburgo, poderiam ter abraçado outras sonoridades, mas escolheram a concertina. Poderiam ter vergonha das raízes, mas fazem delas um cartão de visita. Como afirmam no seu lema: sem medo de mostrar a cultura. E fica o desafio à comunidade e às instituições: se os jovens fazem a sua parte para manter viva a lusofonia, que as portas – e as salas de ensaio – se abram para eles.


