Segundo informações publicadas pelo jornal “El Nacional”, a dinâmica do autoritarismo moderno na América do Sul tem evoluído de forma a não exigir mais a crença dos cidadãos numa melhoria futura. O poder actual, mais sofisticado e indiferente, procura apenas assegurar que a situação poderia ser pior caso não o aceitassem.
A Venezuela emergiu como um dos laboratórios mais evidentes desta transformação. Nos últimos meses, o discurso governamental em Caracas deixou de tentar justificar a sua legitimidade democrática, sem promessas de eleições livres no horizonte nem um esforço real para reconstruir uma narrativa ideológica. Em vez disso, surge uma lógica puramente administrativa do poder.
Não se trata de um regime que pede crença; é um regime que exige aceitação. A diferença é subtil, mas significativa. A crença convida à adesão, enquanto a aceitação implica resignação. A mensagem do governo, comunicada com mínimas variações, é clara: o país tem sofrido demasiado, a instabilidade está sempre à espreita e a liberdade é apresentada como um luxo perigoso. Sob essa lógica, a democracia torna-se uma variável secundária e a ordem é apresentada como um bem superior.
Este fenómeno não é exclusivo da Venezuela, mas reflete uma tendência mais ampla já observada em diversas regiões: governos que, após terem perdido a legitimidade eleitoral ou moral, restabelecem o seu poder não através do entusiasmo, mas pelo esgotamento social.
Para entender por que razão este tipo de discurso é eficaz, é necessário olhar menos para a política e mais para a psicologia. Os venezuelanos vivem num estado de “domínio de perda”, como dizem os economistas comportamentais. Têm perdido rendimentos, serviços básicos, segurança e instituições. Em muitos casos, até o país se perdeu, resultando numa emigração em massa.
Quando uma sociedade experiencia uma longa sequência de perdas, altera a forma como toma decisões. Neste contexto, a busca já não é por maximizar os benefícios, mas por minimizar os danos. Os cidadãos deixaram de exigir ideais e, em vez disso, toleram o suficientemente bom para evitar a degradação.
O novo discurso do poder está meticulosamente ajustado para explorar esse estado mental. Não oferece promessas de prosperidade, que exigiriam provas tangíveis. Em vez disso, oferece uma contenção. Não promete liberdade que necessitaria de legitimação, mas a garantia de que o desgaste não será pior. Este modelo é, portanto, um contrato implícito de obediência em troca de estabilidade.
Além disso, a narrativa do poder não se sustenta apenas no medo, mas também numa reconstrução simbólica cuidadosa. Os líderes foram aprendendo a comunicar em termos que evocam proteção, em vez de autoridade. Apresentam-se como administradores responsáveis, como guardiões que previnem o colapso. O inimigo, seja interno ou externo, continua a ser uma figura necessária, não para incitar entusiasmo, mas para justificar restrições.
Este modo de comunicação não pretende mobilizar a sociedade; antes, busca desmobilizá-la. Funciona precisamente porque não exige muito. Não pede lealdade ideológica, participação política ou sacrifícios heróicos. Apenas exige que a população não desafie o sistema.


